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criado por carmemfidalgo
15:41:58O professor online e a pedagogia da transmissão
Marco Silva
Pouco se fala sobre isso nas universidades. Pouquíssimo se fala sobre isso nos cursos universitários de Pedagogia – aqueles que deveriam ser os primeiros a se posicionar a respeito. Há uma portaria do MEC que diz: as instituições de ensino superior do sistema federal poderão introduzir, na organização pedagógica e curricular de seus cursos reconhecidos, a oferta de até 20% das disciplinas que, em seu todo ou em parte, utilizem método não presencial, ou seja, a distância. Esta portaria (nº2.253, de 18/10/2001) completa agora um ano e é preciso convocar os professores – não só os universitários – ao debate sobre suas habilidades com o ambiente de aprendizagem online, uma vez que a educação a distância em papel perdeu seu trono para a internet.
A educação via internet vem se apresentando como grande desafio para o professor, acostumado ao modelo clássico de ensino da sala de aula presencial. São dois universos distintos no que se refere ao paradigma comunicacional dominante. Enquanto a sala de aula tradicional está vinculada ao modelo unidirecional “um-todos”, que separa emissão ativa e recepção passiva, a sala de aula online está inserida na perspectiva da interatividade, entendida aqui como colaboração “todos-todos” e como “faça você mesmo” operativo. Acostumado ao modelo da transmissão de conhecimentos prontos, o professor se sente pouco à vontade no ambiente online interativo, onde os aprendizes podem ser co-autores da comunicação e da aprendizagem. ( ... )
No ambiente online o professor terá que modificar sua velha postura, inclusive para não subutilizar a disposição à interatividade própria do digital online. No lugar da memorização e da transmissão centradas no seu falar-ditar, o professor propõe a aprendizagem aos estudantes modelando os domínios do conhecimento como espaços abertos à navegação, manipulação, colaboração e criação. Ele propõe o conhecimento em teias (hipertexto) de ligações e de interações, permitindo que os alunos construam seus próprios mapas e conduzam suas explorações.
De apresentador que separa palco e platéia, emissor e espectador, o professor passa a arquiteto de percursos, mobilizador das inteligências múltiplas e coletivas na experiência da co-criação do conhecimento. E o aluno, por sua vez, deixa a condição de espectador, não está mais submetido ao constrangimento da recepção passiva, reduzido a olhar, ouvir, copiar e prestar contas. Assim, ele cria, modifica, constrói, aumenta e torna-se co-autor da aprendizagem.
Aliás, o aluno aprendeu com o controle remoto da TV, com o joystick do videogame e agora aprende com o mouse. Esse trajeto resulta em migração da recepção passiva, para uma nova recepção que evita acompanhar argumentos lineares que não permitem interferência, agregação, modificação. O professor precisa se dar conta de que isso significa emergência de uma atitude menos passiva diante da mensagem. E que essa atitude vem exigir uma nova sala de aula presencial ou online, onde transmissão e “decoreba” estejam fora de lugar.
Para não violentar esse aluno e também a internet, o professor precisa aprender com o webdesigner e não mais com o apresentador de TV. Enquanto esse velho conhecido é o narrador que atrai o espectador de maneira mais ou menos sedutora para sua récita, o informata constrói uma teia de territórios abertos a navegações e dispostos a interferências, a manipulações. Para não subutilizar a natureza comunicacional da internet, para não subestimar a disposição comunicacional do aluno, o professor precisa perceber que a tela da TV é espaço plano de irradiação que só permite mudar de canal, enquanto a tela do computador é espaço tridimensional, que permite adentramento e manipulação dos conteúdos. Precisa perceber, enfim, que a tela da TV é para assistir e a tela do computador é para interagir, e que assim emerge uma nova ambiência comunicacional, já definida como cibercultura.
É preciso se colocar a par da cibercultura, isto é, da atualidade sócio-técnica informacional e comunicacional, definida pela codificação digital (bits), isto é, pela digitalização que garante o caráter plástico, fluido, hipertextual, interativo e tratável em tempo real do conteúdo, da mensagem. A codificação digital permite manipulação de documentos, criação e estruturação de elementos de informação, simulações, formatações evolutivas nos ambientes ou estações de trabalho do tipo Macintosh, Windows, Linux, concebidas para criar, gerir, organizar, fazer movimentar uma documentação completa com base em textos, grafismos, sons, imagens, vídeos e números.
O professor pode lançar mão dessa disposição do digital para potencializar sua sala de aula online. Ao fazê-lo, ele contempla atitudes cognitivas e modos de pensamento e de valores que se desenvolvem juntamente com o crescimento da cibercultura. Ou seja: contempla o novo espectador, a geração digital.
Por não perceber a nova ambiência comunicacional que emerge com o digital, o professor tenderá a manter em seus cursos via internet o mesmo modelo de ensino em que os conteúdos são distribuídos em sites educacionais estáticos, ainda centrados na transmissão de dados, desprovidos de mecanismos de interatividade, de criação coletiva, de aprendizagem construída. Como diz o pesquisador de EAD online Paulo Blikstein, do MIT, o paradigma permanece o mesmo do ensino tradicional. O professor é o responsável pela produção e pela transmissão do conhecimento. Assim, os cursos pela internet acabam considerando que as pessoas são recipientes de informação, e a educação continua a ser, mesmo na tela do computador online, o que ela sempre foi: repetição burocrática ou transmissão de conteúdos empacotados. Se não muda o paradigma, a internet acaba servindo para reafirmar o que já se faz.
É preciso não subutilizar a internet. Para além do site estático, feito com pacotes de informação e de exercícios a serem assimilados e cumpridos, é preciso investir na construção de arejados ambientes virtuais de aprendizagem, que disponibilizem ferramentas (interfaces) que permitam a participação e a colaboração dos aprendizes na construção da comunicação e do próprio conhecimento.
Os conteúdos são disponibilizados em forma de hiperlinks que permitem ao aprendiz transitar aleatoriamente por fotos, sons, filmes, textos, gráficos etc, e ainda interferir em conteúdos – necessitando para isso da colaboração do web-roteirista ou do instructional designer. Assim, ele vai além da lógica unívoca da mídia de massa, democratizando a relação do usuário com a informação e gerando um ambiente conversacional que não se limita à lógica da distribuição. Isso, associado a interfaces fáceis como fórum, chat, mural, galeria de produções, banco de dados abertos à manipulação e à intervenção livre e plural dos alunos e do professor, pode fazer a diferença.
Diante do computador online, o usuário transita da condição do espectador da TV, para a condição de sujeito operativo, participativo. O professor pode inquietar-se bem com essa transição e aí encontrar inspiração para reinventar sua autoria na sala de aula online, e também na sala de aula presencial e infopobre.
*Marco Silva é autor do livro “Sala de aula interativa” - marcoparangole@uol.com.br - e professor da Uerj.

criado por carmemfidalgo
12:14:22O PROFESSOR DO PRÓXIMO MILÊNIO
Andrea Cecilia Ramal
Pesquisadora do Centro Pedagógico Pedro Arrupe
Autora de Histórias de Gente que Ensina e Aprende
Doutora em Educação - PUC-RJ
Diretora da Instructional Design.
Creio que o computador vai substituir o professor. Estou falando, é claro, do professor-transmissor de conteúdos, parado no tempo, aquele das conhecidas fichas que serviam para todas as turmas, ano após ano. Aquele que pensava que, mesmo apresentando as coisas de maneira maçante e tradicional, trazia novidades para pessoas que não sabiam quase nada. Essa transmissão de dados passará a ser feita pelo computador de um modo muito mais interessante: com recursos de animação, cores e sons; o aluno terá papel ativo, buscando os temas em que deseja se aprofundar. Algo excluído há muito tempo do currículo entrará na escola: a própria vida do estudante. Então caberá a nós reinventar a nossa profissão.
Como será o professor do próximo milênio? Acredito que ele será um estrategista da aprendizagem. Alguém que vai precisar conhecer a psicologia e a ecologia cognitivas de seu tempo (em outras palavras: saber como o aluno aprende), para poder criar estratégias de aprendizagem no ambiente do computador.
Existem duas formas de usar a máquina na sala de aula. Uma é como se ela fosse simplesmente um caderno mais prático, ou um quadro-negro mais moderno: por exemplo, colocar os alunos para copiar textos no Word, ou dar aula com apresentações no Powerpoint. Isso não é novidade, é apenas incrementar a aula tradicional com elementos atraentes.
A segunda maneira é tornar o computador um novo ambiente cognitivo, ou seja, compreender que no contexto digital mudam as nossas formas de pensar e, portanto, de aprender. Isso não é inédito na humanidade: quando a escrita surgiu, o mundo começou a pensar diferente, a organizar as idéias de outro modo e a formar novas visões da realidade. Nossa época é tão decisiva na história como aquele momento. Cabeças deixam de ser analógicas para se tornar digitais. Como se estrutura seu pensamento?
Vou dar um exemplo muito simples, a partir da minha experiência. Fui professora de Português/Literatura e Redação e, durante muito tempo, reclamei dos alunos que não queriam fazer rascunho, pensando que era preguiça. Hoje percebo, estudando as práticas de leitura e escrita na cibercultura, que na verdade existe uma nova relação com o erro. Antes, errar significava refazer toda a página. Agora, o esboço é o monitor. O rascunho é o próprio texto. Escrevemos pelo ensaio-e-erro: não gostei deste parágrafo aqui, puxo para lá, excluo, reescrevo - tudo antes de imprimir. É uma espécie de aprendizagem por simulação. Como pretender que os jovens façam rascunho no papel? Isso corresponde ao paradigma da página, da linearidade. Acompanhar o processo de escrita pelos monitores em que os alunos trabalham, em vez de ficar apenas com o resultado final, pode ser uma estratégia para conhecer mais e melhor a dinâmica dos processos de escrita dos estudantes.
Pierre Lévy usa duas expressões interessantes para falar do professor: arquiteto cognitivo e engenheiro do conhecimento. Traduzindo: aquele profissional responsável por traçar e sugerir caminhos na construção do saber.
Esses novos papéis vão exigir mudanças nos cursos de formação docente, abertura permanente ao novo, visão crítica na seleção das informações, sintonia com os desafios de cada momento e atenção constante aos processos educativos, tanto quanto aos resultados. O percurso que cada aluno tiver empreendido, a sua forma de navegação pelo universo do saber, será o contexto do qual o orientador de estudos terá que partir para traçar os próximos links da rede de construção coletiva do pensamento.
Só podemos imaginar que, no próximo milênio, vai ser muito mais difícil ser um mestre. Mas, em contrapartida, estaremos contribuindo para formar, em vez de receptores passivos de conteúdos, seres mais capazes de atribuir novos sentidos para a realidade; pessoas que saibam criar novos saberes, a serviço da humanidade.
Está em nossas mãos, agora, a possibilidade de deletar a escola de portas fechadas e cercadas por muros, para deixar nascer a escola da multiplicidade, do hipertexto, do link, das janelas abertas e das salas de aulas conectadas com o mundo.
E garanto que tem muita gente que mal pode esperar por ela.

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